Galeria
Em outros tempos era simples e fácil ter um papel apoiado e um grafite mais ou menos apontado entre os dedos. Em outros tempos eu parei, certa vez, entre uma avenida movimentada e clara e uma ruazinha bastante deserta. Parei – paramos – ali, entre o caos e o (quase) nada, numa ruazinha que cortava a rua e a avenida e, como cortava as duas, assim também ligava uma à outra.
Mas o que quero dizer é que toda a dificuldade de se parar ali era qualquer coisa não muito difícil diante de estar parado aqui, sem rua, sem nada. Em outros tempos, as ruas eram outras, a cidade era outra. Parar naquela rua era a gostosa dificuldade fácil de realizar. Mais saudável eu pareço me encontrar de todas essas ruas. Mas o gosto no canto da boca, hoje, é de saudade transpassada pelo vento, desenhada por letras de música que vagamente ressoam entre meu peito e minha cabeça, bem aqui entre a boca que agora cala e os pulmões que suspiram umidecidos pelo outono.
Em outros tempos também era mais fácil trancar a porta do quarto e chorar até adormecer. Mas depois que se aprende a amarrar bem os sapatos, consequentemente esse nó de saudade que aparece ali, aqui, bem no meio da garganta também se torna mais apertado, quase cego. E aquela rua lá dos outros tempos fica desenhada entre linhas tortas que rabiscam as lembranças de uma respiração ou um sorriso. E era tão mais fácil contar tudo para a calada noite e sorrir no dia seguinte, quase sem querer, sem saber ao certo que a gente é muito mais maduro quando quer ser adulto do que de fato somos quando chegamos a ser.
Coisas que aprendemos depois – bem depois – que atravessamos outras avenidas. Coisas que percebemos quando, hoje, não mais entramos naquela ruazinha quase deserta que ligava uma a outra avenida. Nunca se sabe de tudo antes de descobrir que sabíamos mais, ontem. E se invade a saudade da rua, dos tempos outros, o nó, o frio da noite de outono... Vale-se lembrar que se ontem sabíamos mais, só hoje podemos descobrir todo o resto. A lei da vida é essa – descubro, afinal. Ou a lei das ruas.
domingo, 13 de setembro de 2009
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