quinta-feira, 17 de setembro de 2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

VIDA

Estar sem saber se esteve antes em algum lugar
Esperar sempre tendo outros momentos para vivenciar, porém nunca deixando de estar.
Gostar de algo ou alguém sem nem mesmo antes provar.
Presenciar algo que não viu, tendo apenas uma visão interna do que esta sendo colocado.
Concordar para jamais deixar escapar, pois a razão contigo sempre estará.
Viver de uma maneira eloqüente e intensamente, sabendo que a morte não é nada de mais, apenas o fim.
Chorar para transbordar, ainda bem que não temos uma bóia para nos travar.
Fugir sem pensar, uma maneira fútil de interpretar o verbo amar.
Agir sem pensar pode deixar algo passar, por isso, pense e aja para melhor a vida interpretar.
Ligar para falar, ou apenas para escutar.
Saber se colocar, para que um dia uma ação verbal ou corporal não seja anormal.
Ilusão de ser. Seja, Aja, esteja, permaneça vivo para ser feliz, pois mesmo tendo momentos tristes a vida é bela e o paraíso esta dentro de você.
Eu sou você, você sou eu, somos os outros e os outros nem sempre saberão quem realmente são.
Vida boa, vida boa, vida boa, vida boa, vida boa... Cadê?
Dentro de você.

domingo, 13 de setembro de 2009

Depois do escuro


Quando eu era pequeno eu tinha medo de escuro. Eu morava com meus pais numa casa onde os quartos ficavam na parte de cima. Foi a última casa que moramos juntos depois da separação deles... Nessa casa, meu quarto ficava logo depois da escada, era o primeiro cômodo. Eu sempre acha que durante a noite alguém subiria e me levaria embora sem que os meus pais vissem , e eu acordaria, no escuro, em outro lugar que eu não conseguia imaginar como seria às vezes, quando eles brigavam, eu queria que alguém chegasse e me levasse mesmo. Então eu fazia força prá imaginar que esse outro lugar era calmo e colorido. Mas ainda assim eu tinha medo do escuro.
Aí o tempo foi passando e os outros medos me mostraram que medo de escuro era, ali, uma ilusão. Tudo que poderia haver no escuro também pode existir no claro, mesmo que tenha outra cara. A gente tem mesmo é que ter medo do que tem depois do escuro, onde as ilusões ficam camufladas sobrepostas, onde a gente enxerga menos, mesmo tendo qualquer luz que seja, e vamos tateando paredes e prateleiras e essas ilusões se apropriam da gente pelo simples toque.
Hoje eu já não tenho mais medo do escuro. Eu m preocupo bastante com o depois dele.
Estranho Rock-blues


Eu quero tudo no próximo hotel!
Solidão que nada...
Partida ou chegada? Solidão que nada!
Recitava cazuza na sua espera, beijamo-nos ali mesmo.
Sai falando:
- Oi! Quero ouvir essa música que a gente criou, dei um nome para ela: estranho rock-blues... Engraçado?
Ele me passa o mp3, coloco no ouvido esquerdo e o fone direito no bolso direito, avisto ao longe um travesti falando alto, e posso ler nos seus lábios:
-O meu novo nome é um estranho que me quer.
Porém para contar esse Rock-Blues um nome não me basta, um céu cheio de estrelas não me basta, nada me basta se não tem quem beba a mágica estrutura dessas palavras, que se confundem com ondas soltas no mar.
Bom, ele era esguio reto na postura, comportamento europeu, me parecia majestoso delicado nos movimentos a desenhar o ar com um cigarro, meu colonizador pensei...
Eu ali carcará, pega mata e come, ele diante de meus olhos, está do meu lado direito, ele para.
Olha nos meus olhos, logo voltamos a caminhar, os acordes do rock-blues invadiam meus sentidos, forçando os tímpanos do lado direito ceder para expurgar a areia ali acumulada, o rock-blues e os movimentos dos seres eram graciosos e gentis, tudo no tempo de um filme, aquela sensação que se sente quando esta com um mp3 no ouvido, porém meu lado direito estava lento.
Hoje é 6 de abril de 2009 acordei no estado vazio, na ilusão, e nele pairo...
Meu ouvido da sinais de melhora.
Mas é esse momento em que tomam as palavras, onde quero juntar o quebra-cabeça que ficou solto na lapa, jogado nos arcos, nos trilhos...
Mas lembro do dia, das cores...
Foi a primeira e última vez que ouvi meu rock-blues, e eu caminhava...
O fone no ouvido esquerdo, o som agora me toma de tal forma que só é possível ouvir meu doce rock- bules e sentir sua presença leve por ali.
-É mentira tua fidelidade, o verdadeiro amor se põe ha contemplar dia e noite a sua criação, lá nos encontramos isolados do sentido de vida e morte.
Você... Paralisado pelo medo contemporâneo, esse espectro tecnológico, sujo, intenso, que te persegue, te convoca para luta armada contra todos os males, punk depressivo! veado gaúcho!
Você diz ser um anticristo, e não se questiona quem foi Cristo?
Hipocrisia, você quer revelar o mundo? Olha pra você.
Quantas besteiras fixadas em um único ser, essa falta de sorriso, esse seu olho caindo fixo na vala por onde passeiam os ratos sujos, olha pra mim! te permite ouvir e sentir isso tudo, é mais simples, menos sentimental.
Apenas um Sorriso



O sol nem raiava e os sonhos do menino já eram interrompidos. Uma madrugada chuvosa se fazia presente. Ele olhava ao redor: “não tem jeito. É preciso ir”. O sono, o frio, eram todos, obstáculos inaceitáveis no interior daquele quartinho.
O dia seria duro. Muito trabalho, muita necessidade. Muita luta. Mas não era momento de praguejar. Ainda sonolento, o menino despede-se de sua casa e sai em direção àquele dia que o espera.
Apesar da chuva, a rua está movimentada. Pessoas passam apressadas por aquele insignificante menino. Uma solidão arrebatadora lhe afoga a alma. Senta-se para respirar. Um aperto em seu peito que não parece ter fim. Chora.
Uma senhora comovida com o choro do menino lhe pergunta o que ele precisa. O menino levanta a cabeça, olha nos olhos da senhora e lhe responde, sem que mude a expressão: “preciso apenas de um sorriso!”.
Você “Não”



Dias cinzentos como o de hoje,
Tudo o que faltava era você.
Deitada. Nua, nos meus braços. O suor do amor.
A vida da paixão, gritando alto nos meus ombros.
O respirar eufórico,
Coração saltitando no meu peito.
Forte. Muito forte.
É amor.

Ouvir falar de você,
Ler você. Ouvir sua voz.
(Eu Te Amo)
Te queria por perto sempre.
Você, não.

A melancolia do "não".
Palavra forte para os que amam.
Uma estaca cravada em meu peito e um pedido de todos de calma.
Como ter calma?
Nunca tive.
Como ter agora? Logo agora...

Tudo sai por mim, pelos poros.
Como suor.
Suo amor, suo vontades, suo desejos, suo você.
Você: não.

Um medo se transforma repentinamente em mil.
Perder.
Ganhar.
Alcançar.
Ser suficiente pra você, minha vida.
Vazia.
E você, longe.
Terrível.
O abismo.

Um beijo,
Agora eu só queria um beijo.
Identidade

Desculpe, qual o seu nome ?
O meu nome é Margarita, Sônia Margarita. Desde pequena me chamam de Coca. É porque eu sou Chilena e chico em espanhol é pequeno de criança. Chicoca é uma forma de chamar a pequenininha do lugar. Como o nome da minha mãe é Sônia e da minha avó é Margarita, a caçula era chamada chicoca, chicoca... “Coca”. Ficou !
Pequena... Durante muito tempo eu me coloquei nesse lugar : a paparicada, a protegida, a mimada, a brincalhona, a limitada, a sem responsabilidade.... a café com leite!
Dizem que o nome diz muito da pessoa , né ?!?
Hoje estou diante de mim, olhando os meus contornos, sentindo o meu cheiro, contando os meus segredos, amadurecendo os meus ideais. Vivendo com vontade a responsabilidade dos meus sonhos. Isso me traz mais calma, me fazendo dançar na minha essência e com ela, sem vergonha. Aquecendo os meus sentidos, me abrindo como uma estrela, amanhecendo...
Estou exatamente no momento do desabrochar de uma flor : Margarita.
Morte



Uma vez eu morri num túnel. Saindo da Sapucaí, fomos andando até a Lapa. Já era dia. Passávamos pelo túnel, desviando de goteiras, de sujeiras e resto de coisas e gentes espalhadas pelo chão. Passando por este lugar onde há muitos não entram os raios do sol. Assim andávamos, cada um no seu ritmo já cansado de pular carnaval. Me vi sozinha, desviando dos obstáculos que só meus olhos viam. E sentindo aquele trajeto com só eu poderia sentir, com todos os meu medos, minhas lembranças, meus nojos e insegurança. Pensava num beijo suado de carnaval quando escutei o barulho de sirene dentro do túnel. As meninas que andavam uns 3 metros a minha frente olharam pra trás e apertaram o passo. Senti medo e quando fui dar o primeiro impulso pra correr até elas ouvi o barulho de um tiro e senti entrar nas minhas costas. Uma coisa quente desceu pelo meu corpo e logo não sentia minhas pernas. Mesmo assim corri até elas. Ou voei, não sei bem. Dizem que a primeira sensação de voar é não sentir as pernas. Toquei ela no ombro e disse: “Fudeu tomei um tiro ele pegou e mim acertou as minhas costas”. Ela disse: “ Não tem nada aqui Fé, pára, não aconteceu nada”. Saímos do túnel. Havia sol. Um dia lindo. Ela me deu uma coca cola e fiquei um tempo contemplando a vida. De noite sonhei que tinha escudos: um sol na barriga e uma lua nas costas.
Esquadro – centro – cinza



Amanheceu. O céu em pesados tons de cinza. Tão pesadas e cinzas e frias as nuvens que me cobri para alcançar a janela. Ao alcançá-la, lembrei-me do copo d’água esquecido pelo meio do caminho e voltei. Pela janela o farfalhar de asas e pombos e o cantar de um filhote de pássaro arrastando-se pelo vento. Mais acima – ainda abaixo das nuvens – outros pássaros equilibrando-se nas correntes altas.
Eu ali na janela, debruçado em esquadros, enquadrado na luz de chumbo refletida. O sono pesando igual as nuvens que também amanhceciam sem dormir. Foi assim, amanhecendo, nascendo o sábado. A música dos carros já estirados pelo asfalto. O carrinho do entregador de jornais gemendo de cansaço. E meus olhos pesados e insones, lutando contra a cama macia; atormentando, da janela essa nova prata luz do dia.
Não quero dizer nada com isso, talvez. Posso eu saber sempre onde se quer chegar? A menina corre atrás de um cão, preto-e-branco; na minha memória, preto-e-branco, colorido, no meu pensar e no existir... Eis a música dos olhos, eis o cantar do amanhecer cinza! Eu a me entregar entre os lençóis. Estou verde.
Sorriso


Um dia eu escrevi um texto que falava de solidão. Um daqueles textos que se resumem em uma tentativa de ser Caio Fernando Abreu ou Clarisse Lispector e não chega a lugar nenhum. Então, esses dias eu peguei meu texto pra reler e vi que estava enganada a seu respeito. Sabe, ele me tocou de uma forma que eu jamais esperaria.
Bom, ele narra a história de um menino pobre que sai nas ruas, no meio de uma multidão, chovendo e um sentimento enorme de solidão lhe bate à alma. Ele senta e chora. Uma senhora lhe oferece ajuda e ele lhe diz que só deseja um sorriso.
E foi isso. Acho que passei uns tempos desejando somente um sorriso. E ainda desejo.
Fragmentos



Hoje sonhei com uma galinha gigante e bonita. Mais parecia um elefante com penas e bico. Segundo o Dicionário dos Sonhos: Serei afortunada no amor.

Antes de morrer minha irmã me ensinou seus movimentos com os dedos. Disse que era tudo o que tinha pra fazer às vezes de dote. Sei que ela quis dizer herança ou algo assim, não dote. Disse que esses movimentos fariam uma mulher muito, muito feliz. Eu nunca tinha feito ninguém muito, muito feliz então prestei bem atenção. Havia 12 movimentos ao todo. Ela os fez na minha mão como linguagem de sinais. Era basicamente o caso de velocidade e pressão em diferentes combinações. Uma brusca inversão tanto na velocidade quanto na direção. Os dedos imóveis como o silêncio, então muitos golpes rápidos que ela chamava de esfoladura. Eu ficava querendo anotar as coisas e ela zombava perguntando se eu leria minhas anotações quando chegasse a hora.
Galeria


Em outros tempos era simples e fácil ter um papel apoiado e um grafite mais ou menos apontado entre os dedos. Em outros tempos eu parei, certa vez, entre uma avenida movimentada e clara e uma ruazinha bastante deserta. Parei – paramos – ali, entre o caos e o (quase) nada, numa ruazinha que cortava a rua e a avenida e, como cortava as duas, assim também ligava uma à outra.
Mas o que quero dizer é que toda a dificuldade de se parar ali era qualquer coisa não muito difícil diante de estar parado aqui, sem rua, sem nada. Em outros tempos, as ruas eram outras, a cidade era outra. Parar naquela rua era a gostosa dificuldade fácil de realizar. Mais saudável eu pareço me encontrar de todas essas ruas. Mas o gosto no canto da boca, hoje, é de saudade transpassada pelo vento, desenhada por letras de música que vagamente ressoam entre meu peito e minha cabeça, bem aqui entre a boca que agora cala e os pulmões que suspiram umidecidos pelo outono.
Em outros tempos também era mais fácil trancar a porta do quarto e chorar até adormecer. Mas depois que se aprende a amarrar bem os sapatos, consequentemente esse nó de saudade que aparece ali, aqui, bem no meio da garganta também se torna mais apertado, quase cego. E aquela rua lá dos outros tempos fica desenhada entre linhas tortas que rabiscam as lembranças de uma respiração ou um sorriso. E era tão mais fácil contar tudo para a calada noite e sorrir no dia seguinte, quase sem querer, sem saber ao certo que a gente é muito mais maduro quando quer ser adulto do que de fato somos quando chegamos a ser.
Coisas que aprendemos depois – bem depois – que atravessamos outras avenidas. Coisas que percebemos quando, hoje, não mais entramos naquela ruazinha quase deserta que ligava uma a outra avenida. Nunca se sabe de tudo antes de descobrir que sabíamos mais, ontem. E se invade a saudade da rua, dos tempos outros, o nó, o frio da noite de outono... Vale-se lembrar que se ontem sabíamos mais, só hoje podemos descobrir todo o resto. A lei da vida é essa – descubro, afinal. Ou a lei das ruas.
Infância




Eu tinha que escrever um texto sobre minha infância. E eu tava pensando... Que eu posso falar que eu não lembro nada interessante da minha infância pra contar. Posso dizer que eu era um bebê de Ipanema, que ia pra praia desde que tinha oito meses. Que via meus pais indo pra Sapucaí desde os dois anos; mesmo nunca tendo me levado... Que cresci e virei um molequinho jogador de futebol. Depois posso contar que meus pais entraram em conflitos comigo porque não era possível; afinal eu era uma menina – Mas andava com a camisa do Flamengo e de chuteira do pé – e eles me colocaram pra dançar. Mesmo com a camisa do Flamengo, eu tirava a chuteira e ia brincar. Engraçado, uma criança brincando. Era Teatro. E tinha até nome. “Presa por um Presuntinho”. Minha primeira história dramática e encenada. Era, o moço no bar no play e o piscineiro cansaram de ver as artimanhas de um jacaré chamado Presuntinho. Ai, depois dessa pressão ou dessa opressão dos meus pais, não tinha mais jeito: resolvi então que eu era uma menina. Fui dançar e não parei mais... Vivia entre futebol e ballet. Bem, e posso terminar dizendo que, já grandinha, namorei com um monte de menininhos, mas nenhum que supria realmente – Inclusive meu primeiro namoro foi o que mais durou, porque eu ia pra quadra do prédio com ele todo dia jogar bola... (enfim... rsrs...).
Diálogo



Dois mendigos bêbados discutindo no shopping chão da Glória:

- Ta errado! Ele ta errado!
- Ah, você não sabe nada!
- Ta errado! Quem ele pensa que é? “ Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Ta errado. Tudo vale a pena quando a alma é pequena. Tinha que ser assim a poesia.
Ah! Que dia


Sabe esses dias em que nada sai como planejado? Pois bem, esse é um deles.
É cedo. Acordo. Pressa. Em vão. Primeira atividade do dia, furada! Cara na porta. Dinheiro gasto. Volto. Durmo. Ao levantar, leio. E é Você. “Meu coração ta batendo, como quem diz não tem jeito. O coração dos aflitos pipoca dentro do peito [...] Coração bobo, coração bola, coração balão, coração São João. A gente se ilude dizendo já não há mais coração”. Sonho, sonho e sonho. Esqueço, quase perco! Corro, corro, corro. Em vão. Cara na porta. Mais dinheiro gasto. Raiva, calor, indignação. Um bichinho comendo o interior do meu estomago e não é fome. É vontade de gritar. Grito, liberto, respiro. Volto. E pra minha surpresa, mais uma cara na porta. Ah! Que dia! Pelo menos, sem mais dinheiros gastos. Esperarei. Fim do mundo. Vontade de chorar. Não choro. Telefone, raiva. O descontar de um dia aflito em alguém sem a menor culpa. Não há desculpas. Há tentativa, um pouco tardia. Espero. Raiva tornando-se fome. Como.
Enfim uma luz. Graças a Deus. Subo. Ao abrir a porta, ta ali. A chave. Com pude? Pessoas esquecem. Eu não. Pego, entro. Roupa cansada. Tiro. Ela entra. Eis a tentativa de desculpas. Porém sobre um novo problema. Chato. Desculpas, que deveriam ser pra provocar harmonia, só pioram. Por que a gente sempre resolve falar nas horas mais impróprias? Falei. Errei.
Estou aqui, olhando através do vidro da janela, repensando os minutos cruéis passados na rua. O sol, lá fora, radiante. Sair denovo? Arriscado. Ao mesmo tempo as paredes se parecem tão iguais. Cores tão diferentes, mas paredes iguais. Todas apertadas. E cada hora apertando mais em cima da minha cabeça.
O que fica em mim, é a vontade dela ir. Ou dele vir, simplesmente porque quis vir. Tão bonito. Meu “menino bonito”. Não, não meu. Dela. Ah! Ela. Por que sempre tem que ter essa palavrinha tão insignificante, mas que está sempre entre nós dois: Ela? Eu, você e ELA. Ou seria você, ELA e eu? Sim, é isso. O problema é o “eu”. Mas eu gosto de ser o problema. A cada dia que acordo e leio você, eu gosto. Simplesmente gosto. Durmo esperando sentir o prazer de te ler na manha seguinte. Sentimento curioso. Não, não é sentimento. Esse sentimento não existe. Não tem como existir. É coisa da minha cabeça. Mas que cabeça dura! Única saída. Esperarei, esperarei, esperarei... “Tu vens, tu vens. Eu já escuto teus sinais...”.
CRIANÇA

Quando criança brincava sozinha de fechar os olhos e imaginar o espaço. Tudo preto azulado e alguns pontinhos brilhantes fugidios. Como se nada existisse. Nem eu, nem você, nem a cor ou o som. Só o espaço. O nada. O barulho ensurdecedor do silêncio e a mente vazia. E ali eu ficava por algum tempo, que contado assim no relógio qual eu não saberia. Mas passava e eu partia para uma nova brincadeira. Até hoje eu lembro e sinto o que sentia, apesar de já não mais saber brincar tão direito como eu fazia.
Coisas que vou esquecer


Coisas que vou esquecer :
Vou esquecer o nome dos meus professores.
A cor da roupa da minha primeira missa
O volume da voz da minha mãe eu não vou esquecer, mas vou esquecer a idade do meu pai. Vou esquecer algumas canções que gostava, mas não vou esquecer o boneco de cabelos vermelhos do meu primo.
Vou esquecer-me das vezes que reprovei na escola, mas não vou esquecer minha primeira peça de teatro.
Vou deletar que é pueril e fútil, qualquer insulto ou violência, mas não vou esquecer de pegar uma taquara para tocar na barriga dos aviões...
Vou salvar como> tudo que me fez dançar.
Meu irmão prometeu fazer um balão pra gente voar, isso nunca aconteceu. Mas ele me ensinou a fazer Pipa.
ILUSÃO

Ilusão é acordar de manhã abraçado no travesseiro.
Olhar a linha do horizonte, e falar pro vento.
É o barulho da chuva no final do domingo, é acordar pra dentro.
BLUES PRÁ MIM
(Juliano Barros)
Blues é Renato Russo, é o pomar dos osos onde fica Alva, Cazuza, Caio, Elis, Clarice.
Blues é dançar escondido de sunga preta.
Blues fumar um cigarro escondido no intervalo.
Blues é o primeiro porre.
É a primeira festa, o primeiro beijo.

Meu pai e minha mãe me chamam de Bili, é uma forma carinhosa.
Meus irmãos me chamam de Celau Rapadura, pq sou magro, acho que deve ser algo carinhoso também.
BLUES


Esse blues pra mim é alto mar. É o espelho da água refletindo a lua. É balançar numa rede com o vento cortando a roupa. É estar sozinho. É estar esperando. É estar feliz de uma felicidade esquisita. Que começa contraindo o corpo e mais parece tristeza que alegria. Mais parece choro que risada. Blues é sorrir com o canto da boca. Blues é Caio, é Clarice. Blues é verde. Blues é vinho. Blues é gritar e brigar. Blues não é gastrite. Blues é infecção generalizada. É chuva na janela, são seus beijos no meu pescoço. Mesmo eu não gostando de beijos no pescoço. Mas são os seus beijos que são blues. Blues são as crianças azuis. Blues é segredo, blues são dois ou mais. Blues é o som do salto do sapato de uma mulher passeando de madrugada em zigue zague na calçada da rua.
SOLIDÃO

Ontem eu estava em casa arrumando o meu armário, parei e dei uma olhada no apartamento e disse : Gente !... Eu moro sozinha !
Moro sozinha já tem sete meses e agora que eu olho prá isso. Sabe como é chegar em casa e contar para alguém como foi seu dia ? Contar uma coisa engraçada que te ocorreu Reclamar que fulano está chato hoje ! Ou então : “ ele não pára de reclamar !” ou “ ele deixa tudo zoneado!” , “ Não agüento mais”, “ Que saudades !” ... gosto de estar sozinha. Solidão.
As únicas certezas que temos na vida é a solidão e a morte. São as duas coisas que mais fugimos a vida inteira.
Somos sós ! E é quando podemos ser nós mesmos, ficamos nus sem pudores, podemos sentir inveja, sentir o próprio cheiro, chorar, sermos carentes, mimados, amor na desmedida, sem vergonha.
Estar com você mesmo é poder estar entregue nessa desmedida, sem limite. Brincar, pintar, colorir, dançar na essência, sem críticas, sem mágoas, no aqui e agora. Se deixar transparecer no abismo da alma. Se deixar queda livre, e brincar no fluxo do vento que balança seus cachos, com o pulso de suas veias, com a lágrima dos seus olhos, resgatando lembrança recodificando memória, gozando do seu próprio ser. Ser um canal de vitalidade de suas emoções. Um start das fichas que caem com a sabedoria da vida.
Serenatas para Marieta

Lembrei das serenatas que fazíamos para minha avó, tipo: e acorda minha linda namorada e escuta minha linda serenata, índia teus cabelos dos ombros caídos, negros como a noite que não tem luar, índia da pele morena tua boca pequena eu quero beijar.
Foi em uma dessas festas onde fiz minha primeira interpretação dramática, somente as crianças reunidas na frente da casa, comecei a forçar uma situação de que eu estaria vendo meu gato que tinha morrido, o mico.
E eu chamava o mico pra mim, vem mico, vem! E as crianças começaram a ficar assustadas, lembro de seguir sozinho na brincadeira, por um momento não sabia de fato por que eu estava chorando, e chorava por acreditar estar vendo realmente o gato.
Voltei pra dentro da casa de Marieta, e o alarde já tinha sido criado,
Qual é Juliano? Inventando essas histórias...
Eu era uma criança também, e não sabia que estava inventado, eu acreditava estar vendo o gato.
Marieta tinha 3 macaquinhos de metal, assim: o Mudo! O Surdo! E o Cego! Eram bem pequeninos mas pesavam muito os safadinhos.
Uma tarde eu fui brincar no pátio da casa e cavei um buraco no barro onde enterrei os macaquinhos da minha avó, no final da brincadeira eu já tinha feito tanto buraco no barro, que eu já não sabia onde estavam os macaquinhos.
Foram alguns dias a mágoa de Marieta.
Nos dias que seguiram eu escavei tanto aquela terra que acabei achando os 3 safados, o mudo, o surdo e cego.
Aquele menino queria ser arqueólogo dos sentimentos, encontrar ossadas perdidas no tempo, pra reconstituir histórias.
Surdo, mudo e sego? Essa história é sempre contada nos almoços de domingo, é uma forma de me religar a Marieta.
“ AS pessoas dizem as coisas e as coisas acontecem. O que significa isso? Não sei parece para mim que um louco, surdo, mudo e cego poderia ter feito um mundo melhor que este” (Tennessee Willians)
Você já se olhou?

É, olhar para dentro de você, para o seu interior? Na verdade, quem vive é a vida e nós vivemos a vida que nos é conveniente a cada momento. Eu faço teatro, e por quê eu, que tenho como profissão “a arte”, o fazer teatro, sou taxado como vagabundo? Eu amo o que faço. Eu estou aqui agora trocando com você, que rico... muito interessante e importante essa troca para o ser humano, é uma pena que tenhamos pouquíssima “verdade” no mundo real, que tem de real mesmo, smentea ilusão de ser alguém.
Eu apareço pela rua e vem logo uma galera:
- E aí, está sumido, quando vai aparecer de novo na televisão, quando vai rolar + alguma novela?
E eu cansadão, ensaiando direto a peça, correndo por atrás na produção e vem uma galera ficar me perguntando isso... só se estiver fazendo alguma coisa na televisão é que realmente esta trabalhando? Que saco. Vem logo essa minha cara.
- É, to correndo atrás, mês passado fui lá e deixei um material, vamos ver como fica. Ah, ta rolando uma peça minha... “Veja o que este Blues quer dizer”. Falo tudo direitinho, dou todas as informações... te pergunto, ele vão? Rsrsrsrsrsrsrsrs. Tenho que ir nessa, to atrasado, fiquem na paz.
História



Posso contar uma história pra vc? Uma menina, sentada num balanço, na sombra de uma árvore, balançando. Essa menina mais parece um menino, veste calça adidas anos 80 e faz cara de macaco pra foto. Essa menina nem sabe que quando crescer vai viver uma história rodriguiana com o irmão que ela nem conhece.