domingo, 13 de setembro de 2009

Esquadro – centro – cinza



Amanheceu. O céu em pesados tons de cinza. Tão pesadas e cinzas e frias as nuvens que me cobri para alcançar a janela. Ao alcançá-la, lembrei-me do copo d’água esquecido pelo meio do caminho e voltei. Pela janela o farfalhar de asas e pombos e o cantar de um filhote de pássaro arrastando-se pelo vento. Mais acima – ainda abaixo das nuvens – outros pássaros equilibrando-se nas correntes altas.
Eu ali na janela, debruçado em esquadros, enquadrado na luz de chumbo refletida. O sono pesando igual as nuvens que também amanhceciam sem dormir. Foi assim, amanhecendo, nascendo o sábado. A música dos carros já estirados pelo asfalto. O carrinho do entregador de jornais gemendo de cansaço. E meus olhos pesados e insones, lutando contra a cama macia; atormentando, da janela essa nova prata luz do dia.
Não quero dizer nada com isso, talvez. Posso eu saber sempre onde se quer chegar? A menina corre atrás de um cão, preto-e-branco; na minha memória, preto-e-branco, colorido, no meu pensar e no existir... Eis a música dos olhos, eis o cantar do amanhecer cinza! Eu a me entregar entre os lençóis. Estou verde.

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