segunda-feira, 2 de novembro de 2009

AH, LIGA UM POUCO ESSE AR, ESTÁ TÃO QUENTE.
MEUS SEIOS DOEM, MAS NÃO SEI SE ISSO É BOM OU RUIM. NA TV SÓ PASSAM IMAGENS DE TORTURAS E EU NÃO SEI MAIS QUE CANAL ASSISTIR. COMEÇO A CONCORDAR QUE DEVO VOLTAR A PAGAR A TV À CABO, JÁ QUE A TV ABERTA NADA OFERECE DE BOM...
SINTO-ME SÓ. E IMPRODUTIVA, EMBORA HOJE NO FERIADO NÃO TENHA SAÍDO DA FRENTE DO COMPUTADOR TRABALHANDO...
FERIADO DOS MORTOS - TÃO ESTRANHO ESSE DIA. PENSAR NOS MORTOS É REVIVER, DIZ O REPÓRTER DA TELEVISÃO. SERÁ MESMO? SINTO O GOSTO FRACO E SECO DOS REMÉDIOS QUE ESTOU TOMANDO, E FICO IMAGINANDO COMO SOFRI ANTEONTEM - COM PRISÃO DE VENTRE POR CAUSA DESSES EFEITOS COLATERAIS INDECENTES.
FICAR DOENTE É UM SACO. NÃO PODE COMER GORDURA, NÃO PODE IR NA PRAIA, NÃO PODE FAZER SEXO. ME SINTO DOENTE POR FORÇA DA VAIDADE, DA MINHA EXESSIVA VAIDADE. ESTOU MERECENDO CADA PRISÃO DE VENTRE. ONTEM PENSEI QUE TEMOS QUE PASSAR POR ISSO PARA SERMOS MÃES E PAIS. QUE TEMOS QUE VIVENCIAR ESSAS COISAS RUINS SÓ PRA TER EXPERIENCIAS DEPOIS COM NOSSOS FILHOS E DIZER : "VAI PASSAR...", OU "TOMA ISSO, ISSO, ISSO" OU AINDA : "SE NADA DER CERTO TE LEVO NO MÉDICO!" - É ISSO, SÓ PODE SER ISSO. DIANTE DISSO, TUDO SE TORNA PEQUENO E O CARMA DESAPARECE.
DESLIGA O AR AGORA, JÁ ESTOU COM FRIO DE NOVO...
De lhos bem fechados
-Hei já é madrugada!
- minha passagem foi confirmada para as 6:15
-Hum
- Você está me ouvindo?
-Sim, é que estava procurando aquela meia verde que você me deu.
-hum, esqueci dentro da sacola de compras do super, deve estar na cozinha.
Caminhei em direção a cozinha, a meia verde dançava desvairadamente na pia, tinha ligado a torneira e se banhava esibidinha, toda calorenta, duas ou três piruetas no ar eu sai correndo.
- encontrei a meia dançando na cozinha.
- para de tomar LSD, isso não esta te fazendo bem, está abrindo canais para loucura e isso não vai te fazer bem.
- não, realmente ela estava dançando, não é alucinação.
Caminhamos até a cozinha ele pegou a meia dentro da sacolas de carne, entrgeou na minha mão, e fiquei parado observando a meia, o quarto e a inteira.
Entendeu? Nem eu.
-Sim, é madruga, estou dormindo sonhando com uma meia que dança na pia, você está me ouvindo?
-sim, são 6:15 tenho que acordar.
-Você sabe onde está a meia verde que você me deu?
Esta na sacola de carne, das compras do super que esqueci de colocar na geladeira, vai lá e pega, aproveita e pega minha meia vermelha que deve estar dançando na pia.
Palpite!
Gosto de palpitar, com o barulho da chuva não vou fazer outra coisa.
Ali fico imóvel, esperando a morte chegar?
Não! Tudo por esse meu ego-não-local que salta de um corpo para outro.
Tudo por conta do palpite, que abita.
Mas o que fazer nesse ínterim, onde o eu antigo acessa as informações do eu local.
Rasão aristotélica de um assalto: correr, bater, chorar.
Alarme de uma bomba: fugir, verificar, chorar, morrer.
O gato morto, abrir a porta, 50% esperar por uma mensagem do amigo que abriu a porta primeiro.
Mas viver no âmbito do talvez, a duvida asolada de palpite? Não!
Não vou reagir, vou verificar a bomba e abrir a porta, não vou patinar, vou me jogar no gelo tudo junto misturado derretendo em idéias novas, até ficar velho.
Até a hora de minha morte, palpitar.
Amém!
Reencarnado.
Aqui me encontro reencarnando, encarnado desse teatro que me consome em criação, uma serie de substantivos e provérbios soltos no ar, reelaborando a palavra desse eu não local, esse que vai se redescobrindo, modificando seus sentidos, por conta das informações paranormais que me são enviadas por mensagens misteriosas.
Sim, essas informações que me chegam pela chuva, pelo sol. Através da minha genética milenar, que acompanha minha formação genealógica, quebrando todo o conceito lógico que me é imposto, sou como uma TV ligada, pronto para mudar de Canal.
Me desligo assim, de forma lenta e sobrenatural, naturalmente morro, normalmente observo as letras que vão surgindo na folha em branco, e assim vou reencarnado meu poder particular, minha medicina de cura antiga, aprendida pelos meus, e transmitidas pela oralidade, relembrando livros que ficaram presos na biblioteca de Alexandria e que foram arrasados pelo fogo, mesmo assim algum extremista radical, arquivou eles em sua memória e difundiu entre os marginais, sim só assim acredito ter recebido pela oralidade alguma informação antiga que me reascende, assim a ponto de olhar para santa hóstia sagrada ver naquele pedaço de pão um cheiro de mofo medieval, um antigo aristotelismo impregnado de mentiras e devaneios bem localizados.
Esse meu método de reencarnação é um tanto mais simples, nada elaborado, simplesmente sentido, contado, passado, presente de futuro.
Tudo junto e misturado, completamente inusitado, arquivado de forma xamanica com a magia simpática de todo ser revelador.
Ho! ator que em meu ser abita, servidor dos meus eus, catalisador do meu sentir, encenador do meu amor, da minha dor, expressionista vagabundo, criador de métodos fantásticos, eletricidade alerta, fio condutor da minha vida, experiência mortífera, justificativa da minha movimentação, corpo-mente, espírito errante, cor profunda de difícil visualização, espontaneidade profunda que rega vida em solo infértil, probabilidade das probabilidades, mascara pronta, corpo treinado, experiência transcendental, transmissor de meus impulsos íntimos, fixador de minhas emoções. Aprimorando o antigo conhecimento de contar, catar e tocar a alma alheia, velha sabedoria feiticeira, que me queima, me embriaga de tua fase dionisíaca, me embebeda da tua mais pura beleza e insanidade, me devolve toda graça da criança criadora que abita em mim, em meu Xerox vivo, imprime a beleza antiga de meus ancestrais, me permite amado ator, ser canal purificador, permita-me fazer do meu saber um instrumento de beleza para que eu possa regar esperança em corações abandonados, que o mestre teatro encontre esses caminhos, esses lugares com falta de luz.
Acende e apaga, reencarna em todo ser livre ho mãe arte...
Evoé!
Quando chove. Quando chove molha. Quando chove lava. Quando chove só chove. Quando chove cresce. Quando chove dança um colorido de guarda-chuvas. Quando chove olho fixo no chão. Quando chove prendo-me. Quando chove. Quando chove. Quando chove lá na estrada onde não estou mais? Lá naquela casinha perdida e solitária na estrada que continua lá. Por isso chove. Para lavar aquela casinha. Não quero estar aqui. Gostaria de nos dias de chuva estar lá. Sozinha. Talvez assando um pão. Viriam me visitar os amores que eu ainda não tive. Receberia os mortos também, mas eles não chegariam molhados. Trariam livros de presentes. Livros que eu nunca pensaria em ler. Lá estaria uma melhor amiga que tocaria gaita e me ensinaria a tocar acordeom. Teria um velha com cabelos brancos que não pararia nunca de girar e dançar, comemorando a vida.
Tenho um irmão que não conheço. Essa com certeza é a história das entranhas. Meus pais foram jovens lindos e apaixonados. Acontece que meu pai era casado. Enrolou a minha mãe por um bom tempo com aquele papo: Já ta tudo horrível. Nós nem dormimos juntos. Só não posso separar pelas crianças. Ele já tinha dois filhos. Minha mãe o amava muito e foi levando. Até que engravidou e decidiu que teria a criança. Ficaram junto até meus quatro anos. Mesmo assim, meu pai nunca disse para sua esposa que tinha uma filha fora do casamento. Ou seja, eu era mentira. Assim foi até meus doze anos, quando a esposa descobriu toda a farsa. Foi ao trabalho da minha mãe e disse que não queria nenhum contato comigo. Ou seja, deixei de ser mentira para ser invisivel. Quando tinha 18 anos meu pai descobriu que eu frequentava as mesmas baladas que meu irmão. Então ele começou a me encher de fotos do Vinicius, para que essa tragedia cotidiana não virasse uma Rodrigueana. Meu irmão é bonito, estilo surfista parecido com meu pai e é apenas 3 anos mais velho do que eu. A história mais curiosa de todas, foi uma vez que eu iria a uma festa na casa de um carinha com minhas amigas. Iriamos de taxi e a minha mãe teve um chilique, dizendo que estava com maus pressentimentos, que eu não iria a essa festa, que não queria que eu ficasse andando de taxi e que era pra chamar todo mundo para minha casa, disse: Ué, o que que tem? O que vc vai fazer lá que não pode fazer aqui? Ela estava me tirando do sério e eu falei muitas coisas (gritando) por exemplo isso. E ascendi um cigarro. Fiquei no quarto chorando e fumando, chorando de raiva e fumando. Quando acordei na manhã seguinte, estavam duas amigas ao lado da cama com cara de “aconteceumacoisa”. Falaram: Fernanda,olha que engraçado. Ontem o taxista nos deixou no lugar errado. Ficamos apavoradas, não sabiamos o que fazer então tocamos a campainha de uma casa. Quando abriram a porta, reconhecemos o seu pai, de pijama, naquela casa. Foi ele que nos levou na casa certa. Elas por um milagre foram parar na casa do meu pai. Imagina se eu tivesse ido junto. Tive que levantar, passar um café e contar toda histórinha da minha vida fantasma.
A minha primeira dor de amor foi em frente a escola. Lembro que consegui prender o choro até entrar no onibus e desaparecer pra casa. Nos dias seguintes eu não queria ir a aula. O meu amor prefiriu outra, e assim como num jogo, com torcida e apostadores escolheu a ganhadora dando-lhe um beijo na boca. Valentina era o nome dela. Eramos amigas e apixonadas pelo mesmo garoto, o que era muito comum. Aquela manhã foi toda agitada, pois ele disse que ao meio dia diria qual era a sua escolha. Durante a aula os meninos ficavam passando papeizinhos com apostas. Quando tocou a sirene todos saíram correndo e fizeram um grande circulo em frente a escola com o garoto no meio. Saímos, as duas, segurando os cadernos. Lembro do cheiro de algodão doce misturada com a saliva do beijo dele, que eu ainda recordava bem. Tinha sido o único. Não sei pq entrei no circulo também. Eu sabia que a disputa estava perdida. Ela nem me olhou. Chegou perto e beijou a minha amiga. Devo ter feito uma cara horrível. A roda se desfez magicamente, todos gritando e dando tapinhas nas costas dele. Sai correndo e peguei o onibus. Cheguei em casa com a cara inchada e dormi a tarde inteira.
Quando descobri que queria ser atriz eu chorei. Foi forte demais, mal cabia dentro de mim. Cheia de energia peguei um jornal e comecei a catar cursos para aprender o que no fundo eu já sabia. Por isso achei melhor não procurar um para crianças e fui parar numa turma da terceira idade. A professora me aceitou pois eu disse que só iria fazer se fosse naquela turma, caso contrario não me matricularia. Tudo correu as mil maravilhas até as minhas colegas organizarem uma viagem para Bahia e abandonarem o curso. Essa professora me convidou para integrar um espetáculo que ela dirigia e estava em cartaz . Antes disso só tinha pisado no palco para interpretar o Saci no Sítio do Pica Pau Amarelo, mas ainda era muito pequena e acabei trocando o teatro pelo futebol.
Coisas que não vou esquecer: os riscos do desenho que a minha mãe fez quando criança e a minha vó colocou numa moldura que ficava pendurada na sala. O gosto do meu primeiro beijo de língua e todo o universo novo muito próximo dos olhos. Quando perdi a virgindade assistindo luta livre na tv. A dor da primeira morte e o cheiro daquela tarde qualquer que eu voltava da escola e minha mãe e meu pai me esperavam na frente de casa para me dar a noticia. Quando meus avós me buscavam na escola com mamadeira escondida. Eu deitava no banco de trás do fusca e tomava aqulele leite todo saboroso por ser escondido. Lembro das milhares de bolinhas pretas que tinha no teto do fusca. Dos acampamentos de família. Dos acampamentos da escola. Do meu primeiro amor e a espuma daquele carnaval em Tramandaí. Da vez que passei mal de tanto comer melancia.
Coisas que vou esquecer: datas e números. Letras e seqüências. Qualquer tipo de ordem.
Não vou esquecer do cheiro da minha mãe. Das mãos dela e o sinal que ela tem no peito. Das vezes que meu pai me fez chorar. Das coisas que ainda não disse.
Porque as vezes temos a nítida sensação que não estamos no lugar certo? E as vezes a certeza de estar certo? Hoje resolvi não ir a aula para adiantar outras coisas, pois me falta tempo. Piiiiii. Escolha errada. Caminho torto. Saí de casa em direção ao dentista. Algo me dizia que eu deveria estar na aula. Cheguei no dentista e a secretária disse que ele estava viajando. Fiquei furiosa e fui estupida com ela. Ela disse, “bom vamos agendar para amanhã, mas com outro dentista. A culpa não é minha, vc corre riscos assim aparecendo de surpresa.” É claro que a culpa é minha queridinha. Então marca para amanhã com esse dotorzinho. Aiiii que raiva. E para completar chove. Pensei, humm, vou aproveitar que estou em Botafogo e vou no Mundial pois é mais barato. Entrei no mercado e uma hora depois estava com o carrinho cheio. Um belo rancho, cheio de coisinhas gostosas. Há tempos que eu só passava no mercado correndo pra comprar o necessário. Quand cheguei no Caixa não pudi comprar nada, pois a rede não aceitava cartão de crédito. Aiii, que ódio. Saí e falei, bom fernandinha querida, agora vc vai anadando até o flamengo na chuva pq vc merece isso.
Lembro que quando criança escrevia todos os meus segredos na cabeça para não esquecer. Eu sempre esqueço os segredos. Mas quando criança escrevia mesmo, com canetinha no couro cabeludo. Um dia, soube que minha tia Teresinha estava com câncer e que tinha raspado a cabeça. Na hora me imaginei sem cabelo. Com a careca toda riscada de segredos. Segredos íntimos de uma criança de 5 anos. Depois entendi que se eu lavasse bem a cabeça com shampoo eles sumiriam. Tomava banho toda sorrindo, por me livrar dos segredos daquele dia e por saber o que ninguém nunca saberia. Sem querer escrevendo eu decorava.

Hoje estou cheia de segredos e esqueço deles nos sonhos. Depois os descubro novamente. Me encontro nos papéis, nas palavras, nas histórias, nas esquinas. Nada duradouro, apenas este momento. Coração preenchido de amores temporais, projetos temporais, professores apaixonantes e temporais, ligações temporais. Água e água por toda volta. Penso em ser professora . Ontem eu não pensava assim. Ontem sonhei que gozava com as mãos tapando os olhos, como o macaquinho, para imaginar que não era eu. Voyeur de mim mesma. Olha a loucura.
Esse blues pra mim é alto mar. É o espelho da água refletindo a lua. É balançar numa rede com o vento cortando a roupa. É estar sozinho. É estar esperando. É estar feliz de uma felicidade esquisita. Que começa contraindo o corpo e mais parece tristeza que alegria. Mais parece choro que risada. Blues é sorrir com o canto da boca. Blues é Caio, é Clarice. Blues é verde. Blues é vinho. Blues é gritar e brigar. Blues não é gastrite. Blues é infecção generalizada. É chuva na janela, são seus beijos no meu pescoço. Mesmo eu não gostando de beijos no pescoço. Mas são os seus beijos que são blues. Blues são as crianças azuis. Blues é segredo, blues são dois ou mais. Blues é o som do salto do sapato de uma mulher passeando de madrugada em zigue zague na calçada da rua.