Lembro que quando criança escrevia todos os meus segredos na cabeça para não esquecer. Eu sempre esqueço os segredos. Mas quando criança escrevia mesmo, com canetinha no couro cabeludo. Um dia, soube que minha tia Teresinha estava com câncer e que tinha raspado a cabeça. Na hora me imaginei sem cabelo. Com a careca toda riscada de segredos. Segredos íntimos de uma criança de 5 anos. Depois entendi que se eu lavasse bem a cabeça com shampoo eles sumiriam. Tomava banho toda sorrindo, por me livrar dos segredos daquele dia e por saber o que ninguém nunca saberia. Sem querer escrevendo eu decorava.
Hoje estou cheia de segredos e esqueço deles nos sonhos. Depois os descubro novamente. Me encontro nos papéis, nas palavras, nas histórias, nas esquinas. Nada duradouro, apenas este momento. Coração preenchido de amores temporais, projetos temporais, professores apaixonantes e temporais, ligações temporais. Água e água por toda volta. Penso em ser professora . Ontem eu não pensava assim. Ontem sonhei que gozava com as mãos tapando os olhos, como o macaquinho, para imaginar que não era eu. Voyeur de mim mesma. Olha a loucura.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
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